Opinião
O poder da mentira
“Por causa dessa mentira, além de falsas acusações, Maria Antonieta foi levada à guilhotina.”
04/11/2022 08h00
Por: Samuel Fonte: Dr. Henrique Alves
Imagem de Paulo Pestana

 

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.” Era essa a teoria de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda Nazista, de Adolf Hitler, que muitos inescrupulosos ainda adotam, como ocorreu na sórdida campanha eleitoral que se encerrou no último final de semana. E as falsas notícias quase sempre prevalecem sobre a verdade.

Alguns fatos históricos demonstram isso.

O livro “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, publicado na Rússia em 1903, versava sobre uma conspiração dos judeus para dominar o mundo; até atas de reuniões nesse sentido foram criadas. Os nazistas se valeram dessa mentira como mais um dos motivos para perseguir e eliminar 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra. 

Esse embuste feriu tanto o íntimo dos judeus que a juíza Hadassa Bem-Itto, ao se aposentar da Suprema Corte de Israel, passou a dedicar-se a exaustivas pesquisas sobre o assunto para trazer à tona a verdade. É o que revela o seu livro “A Força da Mentira”, um best-seller traduzido para 11 idiomas e lançado no Brasil em 2017 (Editora Puc-SP).

Em fevereiro de 2018, o parlamento da Polônia aprovou uma lei que prevê a pena de prisão de até três anos para quem divulgar falsas notícias sobre o Holocausto. É uma medida que visa a respeitar a memória das vítimas e a manter viva a lembrança dos crimes ocorridos em seu solo. 

Em nosso país, uma mentira já decidiu uma eleição. 

Em 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes se candidatou à Presidência da República, pela UDN; o presidente Getúlio Vargas lançou candidato outro militar, o general Eurico Gaspar Dutra, pelo PTB.

Faltava um mês para as eleições, e a vitória de Eduardo Gomes era considerada certa. Só um desastre tiraria dele a vitória. Foi o que aconteceu. Para tentar reverter essa situação, os seus opositores intensificaram ataques a ele; em resposta, no dia 19 de novembro, num discurso no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ele disse: “Não preciso do voto dessa malta que apoia o ditador”.

O empresário Hugo Borghi, que apoiava o general Dutra, foi ao dicionário para saber o que essa palavra significa, e lá encontrou, além do sentido usual – súcia, escória, ralé, bando de pessoas de má índole, – outro sinônimo: grupo de trabalhadores que seguem para o trabalho levando suas marmitas. Borghi, muito astuto, deturpou aquela frase e passou a divulgar pelo rádio que o candidato dissera que não precisava de votos de marmiteiros. Eduardo Gomes tentou se explicar, mas a mentira já se espalhara pelo Brasil afora, e ele teve que amargar uma derrota por causa daquela palavra.

Se não fosse aquele episódio, a História do Brasil, a partir de 1945, seria outra.

Pior do que isso foi a mentira que levou uma mulher à morte. 

A corte francesa era uma densa teia de intrigas e hipocrisias. Alguns excessos cometidos por Maria Antonieta logo chegaram ao domínio público, acompanhados de mentiras difamantes. Porém, ela foi abandonando aquela vida de luxo à medida que nascia cada um dos seus quatro filhos.

Em 1789, a situação financeira dos franceses chegou à beira de um abismo. Além dos altos impostos, uma geada destruiu as plantações, e a fome foi aflitiva. O povo, desesperado, bradava por alimentos e precisava descarregar a sua indignação em alguém, e a escolhida foi Maria Antonieta. Isso porque um fato revoltou ainda mais o povo. Dizia-se que, durante um passeio de carruagem pelos jardins do Palácio de Versalhes, ao ouvir os gritos da multidão, ela teria perguntado ao cocheiro a razão de tudo aquilo, e ele teria respondido: “Majestade, não há pão para o povo comer!” Ela então teria dito com ironia: “Se não têm pão, comam brioche.”

Os historiadores Renato Drummond Neto1 e Helge Hesse2 afirmam que Maria Antonieta era caridosa e jamais seria capaz de tamanha insensatez. Explicam que essa frase fora dita há 100 anos por uma rainha espanhola e mencionada pelo filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau, em seu livro “Confissões”, escrito quando Maria Antonieta tinha apenas 6 anos de idade.

Por causa dessa mentira, além de falsas acusações, Maria Antonieta foi levada à guilhotina, no dia 16 de outubro de 1793, na Place de La Concorde, aos gritos de uma multidão ensandecida: “Viva a República!”

Em 1918, uma pandemia causou sofrimento às pessoas – a Gripe Espanhola –, mas de espanhola nada tinha. Ela surgiu num acampamento militar nos Estados Unidos e depois pegou carona nos soldados que embarcaram para a Europa. Em pouco tempo tinha-se disseminado para quase o mundo todo. A imprensa dos países envolvidos na guerra não divulgou notícias sobre essa gripe para não causar pânico nas tropas; a Espanha, porém, que era neutra na guerra, e nenhum interesse tinha em ocultar a verdade, a sua imprensa passou a noticiar o caso. Por conta disso, espalhou-se a notícia de que a gripe era espanhola. 

Mais uma notícia falsa que o tempo não apagou!

1Rainhas Trágicas: Quinze Mulheres que Moldaram o Destino da Europa. Braga (Portugal): Editora Vogais, 2016, pp. 215/258.

2A História do Mundo em 50 Frases. Tradução: Maria Irene Bigotte de Carvalho. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012, pp. 137/144.