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A política dos gregos

“Um povo que elege mal os seus governantes se torna tão vítima quanto cúmplice da sua própria desgraça”

03/11/2022 às 10h50 Atualizada em 03/11/2022 às 11h00
Por: Samuel Fonte: Dr. Henrique Alves
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Imagem: Rondônia Dinâmica

 

“Outrora na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentaram. Tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim próprio, imediatamente intervir na política.” Quem assim escreveu, em 354 a. C., foi Platão, já sexagenário, numa de suas cartas endereçadas a um amigo de Dion de Siracusa.1

Essa manifestação do filósofo se explica porque toda a vida da Grécia Antiga desenvolveu-se estreitamente ligada à cultura e à política, e a classe mais esclarecida da população se envolvia em todos os acontecimentos de cada cidade-estado (polis). Essa vinculação resultava fundamentalmente da organização política em que a população tinha muito zelo pelas tradições, de seus deuses e heróis. Compreende-se, assim, a razão por que um grego antigo pensava antes de tudo como um cidadão ou como um “animal político”.

Essa consciência política chegou a tal ponto que o filósofo Empédocles de Agrigento, líder democrático em sua cidade, concebeu a organização do universo como resultante da multiplicidade de princípios democráticos, com proeminência da isonomia. Em outras palavras, o cosmo era concebido à imagem da pluralidade de poderes da polis democrática.

Atenas teve o seu prestígio aumentado com o aprimoramento da experiência democrática, instaurada em 508 a. C. Pela primeira vez na história, o governo passara a ser exercido diretamente pelo povo na Assembleia (Ekklesia), que decidia os destinos da polis. A preocupação dos cidadãos era, sobretudo, com o bem comum. Isso mostra o quanto estamos atrasados com relação aos atenienses.

Política é uma palavra que possui sentidos abrangentes. Como ciência, tem a sua origem no grego “politikos” de cujo termo derivou polis; daí porque, em sua acepção primitiva, significava organização dos grupos que integravam cada polis. Portanto, em seu sentido puro, política é uma ciência de gestão de assuntos e negócios de interesses públicos, e dos quais deveriam participar todos os cidadãos. É nesse sentido que Aristóteles afirmou que o homem é um animal naturalmente político.

Nessa linha de raciocínio, todas as pessoas deveriam sentir-se no dever de pertencer a um partido político para discutir e apresentar sugestões para o bem comum, tanto assim que Aristóteles pontificava que política visa a infundir caráter nos cidadãos, de modo a garantir à comunidade uma vida justa. Concluiu que não se pode separar política de ética.2

Com o tempo ocorreu a degenerescência da política pelo fato de muitos homens públicos se afastarem dos princípios morais e éticos. Em tempos pretéritos, a honradez que, para muitos, tinha valor superior à própria vida, foi perdendo a sua energia.  A vergonha pela falta ou temor da desonra é um sentimento que pouco enrubesce as faces de muitos políticos. Daí a distinção que se deve fazer entre verdadeira política e o seu sentido degradante.  

Com a reconhecida acuidade, Rui Barbosa asseverou que o batismo adequado à política, em sentido pejorativo, não é politiquice, nem politiquismo, tampouco politicaria, termos adotados pelo vulgo, mas “politicalha” porque o sufixo pejorativo desperta ao ouvido uma consonância elucidativa ao que há de mais vil, abjeto, asqueroso, desprezível, imundo, sórdido na sociedade. E explicou:

“Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes, se negam, se excluem, se repulsam mutuamente. A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais; é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada.”3

Hoje um presidente da República e um ex-presidente, sem qualquer pejo, mentem descaradamente, e tudo parece normal. E de quem é a culpa? Nesse contexto, a frase proferida por Ayres Brito, ex-ministro do STF, é perfeitamente apropriada:

“Um povo que elege mal os seus governantes se torna tão vítima quanto cúmplice da sua própria desgraça.”

Os milênios nos afastaram do sentido moral da política que os gregos nos legaram.

*****

Eu estava decidido a anular o meu voto neste segundo turno. Porém, após muito refletir, concluí que devo digitar o número 22. Mas esse voto é por exclusão. O PT deixou Minas Gerais em estado de penúria, e o Lula prometeu se vingar do governador Romeu Zema. Então, o meu voto não será no Bolsonaro, mas contra o Lula e a do PT. 

 1José Américo Motta Peçanha – Os pensadores – Trad. de José C. de Souza e Outros – S. Paulo: Abril Cultural, 1979 – introdução.

 2Gabriel Chalita, Os Dez Mandamentos da Ética. - 2. ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009, p. 50.

 3Trechos escolhidos de Rui Barbosa - Edições de Ouro –  Rio de Janeiro, 1964, p. 32.

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