O poeta norte-americano Robert Frost criou o seu famoso poema “Caminho não Percorrido” como metáfora das escolhas a que somos submetidos na vida.
Há dois caminhos que se bifurcam num bosque florido. Sendo naturalmente impossível seguir por ambos ao mesmo tempo, a escolha por um é obrigatória. Parado, o viajante ali permanece por muito tempo a meditar...
Embora fossem ambos os caminhos convidativos, posto que gramados e cobertos com folhas, ele opta pelo que leva a um lugar mais distante. Deixa o outro para depois, mesmo duvidando de que um dia pudesse voltar àquele lugar. Ele escolheu o menos percorrido, e isso fez toda a diferença.
Assim é a vida. Ela nos impõe escolhas, e cada um faz a opção que lhe convém, segundo o seu modo e perspectiva de vida. A escolha de um caminho sempre faz toda a diferença. Muitas vezes a estrada é longa e nos conduz a lugar bem distante, e nem sempre a vida nos permite voltar ao bosque e trilhar o outro caminho. Não custa tentar; a vida nunca fica ao lado dos fracos.
Se compro uma camisa, e ela não me agrada mais, abandono-a no armário ou dou-a de presente a alguém necessitado, e isso não me causará problema algum. A escolha de um caminho, porém, não é assim. Quando optamos por um, renunciamos ao outro, e toda a escolha tem um preço. Os atalhos podem ser perigosos, porque as facilidades são desaconselháveis. Quanta gente vê o desvio terminar num abismo!
Se isso acontece, a culpa não é do destino. Temos o livre-arbítrio de escolher uma ou outra vereda, e de resistir aos apelos enganosos e traiçoeiros do mal. “Os homens são, em alguns momentos, donos dos próprios destinos! A culpa, meu caro Brutus, não é das estrelas, mas de nós mesmos que consentimos em sermos inferiores” – sentenciou o personagem Cássio na peça Júlio César, de Shakespeare.
Em verdade, os homens são donos dos próprios destinos não apenas em alguns, mas em todos os momentos, e cada um é soberano para curvar-se ou opor-se às tentações que se apresentam em sua jornada. A fatalidade só existe na morte, pois nada poderá impedi-la quando chegado o encontro marcado – o in extremis.
Voltar ao bosque florido e tomar o outro caminho, muitas vezes não é possível, porque a vida nem sempre nos dá essa oportunidade. Então resta o conforto consolador do pensamento de Chico Xavier: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.
Já o poeta espanhol Antonio Machado considera que não há caminho, cada um faz o seu ao caminhar: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.
Se há escolhas difíceis em nossa vida, nenhuma, porém, se compara à dolorosa e terrificante “Escolha de Sofia”, romance do escritor norte-americano Willian Clark Styron e filme com o mesmo nome.
Sofia é presa e conduzida ao campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra, porque levava, de forma clandestina, um pouco de carne para sua mãe enferma. O consumo de alimentos estava racionado pelos nazistas.
Ela era mãe de um casal de filhos pequenos, Jan e Eva, também conduzidos com ela àquele campo.
A história de Sofia revela um dos mais cruéis sofrimentos a que o ser humano pode ser submetido. Extenuada pela longa e terrível jornada, ela logo percebe estar vivendo uma situação desesperadora, com a certeza de dias difíceis e um futuro incerto; o mais apavorante seria a morte na câmara de gás.
Como o pior é sempre possível, ela se viu confrontada por uma proposta aterradora. Um carrasco nazista colocou-a frente a uma escolha trágica: um dos filhos seria levado para a câmara de gás, e ela deveria escolher qual dos dois; caso se negasse a fazer essa escolha, os dois seriam mortos. Ela, diante desse dilema desesperador, resolveu salvar o menino Jan por considerar que ele teria maiores condições de sobreviver aos horrores que ainda estariam por vir. A escolha é uma crueldade jamais imaginada! A menina foi brutalmente levada ao trágico fim. Jan foi conduzido ao Campo das Crianças, e Sofia jamais o encontrou.
O último olhar de sua filha foi uma cena dolorosa que atormentou Sofia pelos derradeiros anos de sua vida.
A escolha de Sofia se tornou metáfora para escolhas dolorosas.
“Compara-se muitas vezes a crueldade do homem à das feras, mas isso é injuriar estas últimas”, afirmou Dostoiévski.
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“Procure descobrir o seu caminho na vida. Ninguém é responsável por nosso destino, a não ser nós mesmos” (Chico Xavier).
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