
“Para ser um bom professor, você tem que ter várias características, entre as quais a criatividade.” Homenageado nesta segunda-feira (13/7/26) pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o professor de História Sálvio Pires de Souza, com 42 anos de carreira, aconselhou os jovens profissionais que começam sua trajetória nas salas de aula.
Sálvio Souza é o idealizador do Projeto Cartas, desenvolvido na Escola Estadual Imaculada Conceição, na cidade de Pedro Leopoldo (Região Metropolitana de Belo Horizonte). Foi o sucesso desse trabalho o que motivou a homenagem da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da ALMG.
A entrega do diploma de voto de congratulações foi uma iniciativa da presidenta da comissão, deputada Beatriz Cerqueira (PT). A ideia do professor foi estimular os alunos a redigir e postar cartas para o próprio Sálvio de Souza, a partir de entrevistas com familiares e outros moradores da cidade a respeito de episódios marcantes da História do Brasil. “Eles ficaram sabendo de coisas que os livros não contam e se tornaram protagonistas de sua história”, afirmou o professor, ao relatar a experiência.
O projeto surgiu em 2007 e continua, tornando-se referência na educação de Pedro Leopoldo, algo que foi destacado pela deputada BeatrizCerqueira em seu requerimento. “Para quem acha que a Comissão de Educação só fiscaliza, ela conta boas histórias também”, afirmou a parlamentar, ressaltando a importância desse exemplo para resgatar a prática da escrita e a história oral. “Não se contam mais histórias, porque no WhatsApp é tudo muito resumido”, disse a deputada.
De acordo com o próprio relato, Sálvio de Souza criou o projeto Cartas a partir da constatação de que a maioria dos alunos nunca tinha entrado em uma agência dos Correios, nunca tinha escrito ou enviado uma correspondência, algo tão comum no passado.
Como percebeu muitas deficiências na escrita e falta de noções da História do Brasil e do Município de Pedro Leopoldo, o professor deu como primeira tarefa do projeto entrevistar familiares, vizinhos e amigos, pessoas com mais de 70 anos, que vivenciaram acontecimentos históricos,
mesmo que como meros espectadores. Os relatos inéditos foram, então, registrados de forma escrita. O grande fluxo de cartas na agência da cidade chamou atenção até dos funcionários dos Correios. Desde então, o Projeto Cartas virou uma tradição da escola, alternando apenas os temas históricos a serem pesquisados. A cada edição, os melhores trabalhos são premiados com a Medalha Professor Martinho,docente que dedicou a vida à educação em Pedro Leopoldo.
Projeto revela detalhes e repercussões curiosas dos movimentos históricos. O resultado da primeira edição do Projeto Cartas mostrou o potencial da iniciativa. Foi identificado, por exemplo, um ex-motorista do presidente Juscelino Kubitschek. Outro relato foi o de um comício de Jânio Quadros em Pedro Leopoldo e a localização da família que, na época, hospedou o então candidato a presidente do Brasil.
Descobriu-se até um dirigente sindical internado à força pela própria família, num hospício, para fugir ao cerco repressivo durante a ditadura militar. Os estudantes também apuraram que Pedro Leopoldo foi uma das primeiras cidades do Brasil a cassar um mandato de vereador em decorrência do golpe militar.
Outro relato interessante foi um confronto que aconteceu nas imediações de uma antiga fábrica de tecidos logo após o anúncio do suicídio de Getúlio Vargas. Os funcionários foram liberados para participar de uma procissão em luto. No meio do caminho, encontraram outro grupo que comemorava a morte de Vargas, por ser ligado à UDN, partido que se opunha ao então presidente. O conflito foi inevitável.
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