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A revolta na Judeia: uma reflexão

“Até quando o homem irá celebrar vitórias sobre a desgraça dos seus semelhantes!?”

04/08/2025 às 14h37 Atualizada em 04/08/2025 às 15h25
Por: Heitor Silva Fonte: Jornal OBSERVADOR
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Desfile do Exército Romano após mais uma conquista - Enciclopédia da História
Desfile do Exército Romano após mais uma conquista - Enciclopédia da História

No ano 66 d.C., iniciou-se um movimento dos judeus contra os romanos na Judeia, motivado pelo domínio e excessivos impostos cobrados pelo Império Romano. Essa agitação foi ganhando corpo, com ataques a pessoas e instituições romanas, até a Grande Revolta Judaica.

Vespasiano, que lá estivera empenhado na pacificação dos sediciosos, teve de voltar a Roma, aclamado imperador pela morte do terrível Nero. Ao retornar, Vespasiano deixou em seu lugar o seu filho Tito, muito amável com os seus amigos, mas crudelíssimo com os seus inimigos.

Assim, no ano 70 d.C., no comando de uma grande legião de soldados, ele desencadeou sangrentos combates, culminando com o cerco a Jerusalém. Isso ocorreu quando uma multidão de peregrinos, procedentes de todos os lugares daquela província, superlotava o grande templo para a tradicional Festa dos Pães Ázimos, purificação e renovação espiritual.

A chacina resultou na morte de mais de um milhão de pessoas indefesas; cerca de cem mil se tornaram prisioneiros; desses, onze mil, que eram inservíveis para o trabalho, foram mortos. Depois, os soldados saquearam todos os objetos sagrados e valiosos do grande templo judaico e destruíram-no por completo.

A Grande Revolta só terminou em 73 d.C. com a tomada da Fortaleza de Massada, a 520 metros de altitude, e ali, numa única noite, 960 judeus de todas as idades se suicidaram para não se tornarem escravos.

Como ocorria sempre após uma conquista do exército do Império Romano, para celebrar a grandiosa vitória sobre os judeus, houve um monumental e triunfal desfile pelas principais ruas de Roma: à frente, apareciam os 70 mil soldados do exército com os objetos sagrados saqueados do templo de Jerusalém, com destaques para o candelabro de sete braços, a mesa dos pães e, em cima dela, duas trombetas sagradas.

Logo após, aparecia o vitorioso general Tito, com uma coroa de ramos de louro, em pé em um carro puxado por quatro cavalos; por fim, desfilavam os prisioneiros acorrentados. As pessoas, radiantes e orgulhosas, aplaudiam os seus heróis e ridicularizavam os prisioneiros feitos escravos.

Enquanto alisava a cabeça de marfim do seu bastão de carvalho, Lucius Aquillius¹, de sua casa, observava aquele grandioso desfile. As rugas e cabelos alvos denunciavam os anos vividos. Mais que isso, revelavam sabedoria e cultura haurida nos clássicos e na filosofia grega onde aprendera a tirar conclusões sobre os problemas da vida.

Ele, que assistira a tantos desfiles, fazia uma reflexão sobre as conquistas militares e sobre o povo. O desfile seguia, e ele meditava:

“Acabado o desfile, os nobres se reunirão num lauto banquete, enquanto serão distribuídos à plebe trigo e vinho; depois o Circus Maximus ou o Coliseu abrirá os seus portões, e mais um aviltante espetáculo será proporcionado ao povo que se alegra em ver a morte e o sangue dos derrotados na arena em combates ou dos cristãos estraçalhados pelas feras africanas”.

“Pobre povo – meditava – que não pensa, que se satisfaz com migalhas, se embriaga e enaltece os ditadores!”

As cenas daquele magnífico espetáculo ainda estavam vivas nas retinas de Lucius, e ele continuava a fazer as suas reflexões:

“Quantas vitórias celebradas sobre a desgraça de outros povos! Quanto infortúnio e quanto sangue derramado!

Quantas mães sorvem o fel do sofrimento pela perda dos seus filhos nas batalhas! E os que não morreram, como se não bastasse a dor pungente da derrota, ainda têm de passar pela humilhação e sujeição do cativeiro!

Até quando o homem irá celebrar vitórias sobre a desgraça dos seus semelhantes! Sic transibit Roma (assim Roma passará); ela cairá sob o peso da sua própria prepotência.”

Essa profecia se cumpriu.

Dois milênios já se passaram, e ainda hoje muitos povos continuam a aclamar governantes ímprobos, tiranos e desvairados. As quedas de poderosos impérios não lhes têm servido de lição.

“O orgulho precede a destruição; a arrogância precede a queda”
(Rei Salomão – Provérbios, 16.18).

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