O Brasil é um país vocacionado para golpes institucionais. O primeiro ocorreu em 1889, com a Proclamação da República e a deposição do imperador D. Pedro II. O segundo, em 1930: Júlio Prestes, eleito presidente, não tomou posse. Getúlio Vargas, derrotado, e a Aliança Liberal não aceitaram o resultado, alegando fraude, e promoveram a “Revolução de 30”. Washington Luís foi deposto e Vargas assumiu o poder.
Em 1937, houve o golpe do golpe. Esse levante teve por fundamento um relatório sobre o “Plano Cohen”, ardilosamente preparado e falsamente atribuído ao então capitão Olympio Mourão Filho. Segundo o documento, haveria uma iminente revolta comunista que instalaria o caos e a violência no país. O relatório foi amplamente divulgado, inclusive na “Voz do Brasil”, pelo general Góis Monteiro, então chefe do Estado-Maior do Exército. Ele mesmo nomeou o documento como “Plano Cohen”, em referência ao líder comunista húngaro Béla Kun-Cohen.
Incutido o temor na população e a necessidade de um governo forte para combater os comunistas, o caminho para o golpe foi pavimentado. Com isso, houve a ruptura democrática e Getúlio Vargas permaneceu no poder como ditador por 15 anos, no período conhecido como “Estado Novo”.
Em 1945, Vargas provou do próprio veneno: foi deposto pelas Forças Armadas para uma transição democrática. Nesse mesmo ano, o general Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente. Na disputa, uma falsa notícia derrotou o brigadeiro Eduardo Gomes, que estava praticamente eleito quinze dias antes do pleito.
Em 1964, novamente a ameaça comunista foi usada como justificativa para o golpe militar. Em março, o clima era tenso e João Goulart não conseguia conter greves, principalmente de ferroviários, que paralisavam o país. Corrupção e inflação estavam fora de controle. Na madrugada de 31 de março, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, marchou com tropas e tanques em direção ao Rio de Janeiro. Para evitar confronto entre militares, as Forças Armadas depuseram João Goulart.
Por fim, o golpe fracassado de 2022–2023, cujo processo judicial está na fase final. No interrogatório no STF, Jair Bolsonaro disse que jamais pensou em trama golpista e só agiu dentro das “quatro linhas” da Constituição, negando ataques às urnas eletrônicas. Mas desde o início do seu mandato, Bolsonaro agitava o país com discursos sobre supostas fraudes eleitorais, sem provas, chegando a convocar embaixadores para tratar do assunto.
Em 6 de janeiro de 2021, nos EUA, apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio. No dia seguinte, Bolsonaro declarou: “Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos.” Para muitos, essa frase foi a senha para os atos de 8 de janeiro de 2023.
Os acampamentos em frente a quartéis e a invasão das sedes dos Três Poderes não surgiram espontaneamente. Manifestantes foram incentivados por pessoas interessadas na ruptura institucional. A frase “Perdeu, Mané”, escrita na estátua Themis em frente ao STF, simbolizou a ideia de que o resultado eleitoral não deveria ser aceito.
O Código Penal, nos artigos 359-L (abolição do Estado Democrático de Direito) e 359-M (deposição do governo), prevê o verbo “tentar” justamente porque, se o golpe se consuma, não há toga que enfrente as armas. Se tivesse dado certo, arbitrariedades seriam cometidas livremente, como alertou Pedro Aleixo na reunião que instituiu o AI-5.
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